Platão foi o primeiro homem a inferir sobre a forma como o cérebro humano faz escolhas e toma decisões. Em suas ilações, gostava de imaginar a mente como uma carroça puxada por dois cavalos. O cérebro racional, dizia, é o cocheiro - segura as rédeas e decide para onde os cavalos correrão. Caso os cavalos se descontrolem, o cocheiro precisa apenas pegar o chicote e reafirmar sua autoridade.
Com esta metáfora, Platão dividiu a mente em duas esferas separadas: A razão e a emoção.
Durante muito tempo essa premissa orientou todas as variáveis das relações humanas, desde o comportamento até a educação, e norteou a atuação do homem na sociedade como um todo. O grande problema com a teoria de Platão é a de que ela estava totalmente equivocada.
O cérebro humano, instrumento poderoso de interação do organismo com os ambientes, não é separado em dois grandes blocos de atividade mental: razão e emoção. Tanto razão, quanto a emoção são faces inseparáveis da mesma moeda e, somente interconectadas e atuando em conjunto é que tornam o potencial humano algo digno de referência. Nós somos o mais emocional dos mamíferos. Não fomos projetados para ser criaturas racionais. Muito pelo contrário, se não fosse pelas emoções, a razão nem mesmo existiria. Um cérebro que não pode sentir, não consegue decidir. A razão é escrava das paixões, já dizia muito apropriadamente David Hume (filósofo e historiador britânico).
Fica patente então que a tomada de decisões, comportamento tipicamente humano, depende tanto da razão quanto das emoções. Há situações em que a razão parece funcionar melhor. Entretanto, há contextos em que as emoções são infinitamente mais confiáveis para realizarmos boas escolhas.
O que tudo isto tem a ver com a síndrome que assola a humanidade de um modo geral: A desculpa?
Você já percebeu como, nos dias atuais, mais e mais indivíduos escondem-se atrás do escudo pseudamente protetor das desculpas?
Podemos até mesmo classificar as pessoas em dois grandes grupos:
- Aqueles que dão resultados
- Aqueles que dão desculpas
Mas, se o cérebro é estruturado para nos impelir a decidir e agir, porque as desculpas são reações comportamentais cada vez mais presentes?
Voltemos à abordagem dos cérebros racional e emocional. Se considerarmos que o cérebro racional está localizado fisicamente numa área cortical denominada córtex pré-frontal, e se ponderarmos que esta área é uma região neurológica ainda inacabada pelo processo evolutivo, e se ainda refletirmos sobre o fato de que o córtex pré-frontal só consegue processar sete, mais ou menos dois pedaços de informação simultânea, concluiremos facilmente que estamos nos referindo a uma parte do cérebro (aquela que nos faz pensar racionalmente) bastante limitada e até mesmo incompetente. Fazendo uma analogia tosca, podemos dizer que o córtex pré-frontal equivale a uma calculadora antiga.
Já o cérebro emocional, infinitamente superior em capacidade de processamento de dados, pode ser comparado a um laptop ultra-moderno, com vários chips e muita tecnologia disponível.
Isto posto, imagine a seguinte situação: Um casal, que convive sob o mesmo teto há mais de dez anos, possuem dois filhos e têm um certo patrimônio compartilhado. Ao longo do tempo, o relacionamento esfriou a tal ponto de ambos perceberem que os sentimentos que os aproximaram já não estavam mais presentes. A frieza, a indiferença e o afastamento foram inevitáveis, e a relação sustenta-se agora nos seguintes alicerces:
- Os filhos, que podem sofrem com a separação;
- O patrimônio, que será dilapidado numa briga judicial interminável;
- A reação da família que poderá julgar e condenar tais comportamentos;
- O desgaste que todo esse processo gerará (preço que talvez não estejam dispostos a pagar);
- O medo de recomeçar tudo novamente a partir do zero após tanto tempo de caminhada.
Convém lembrar que todas as assertivas apresentadas são válidas, racionais, lógicas e até bem fundamentadas. Entretanto, não passam de desculpas, recursos que o córtex pré-frontal (área do cérebro racional) normalmente utiliza para tentar impedir uma ação que ele não compreende muito bem. Na verdade, seu principal intuito é questionar as intenções do cérebro emocional. Os neurocientistas chamam isto de dissonância cognitiva. Pela lógica, eles estão certos. Mas a lógica pura e simples não funciona no processo decisório humano.
O que está de fato acontecendo com este casal é que seus cérebros emocionais já fizeram sua escolha, já manifestaram suas intenções, já apontaram o caminho. Entretanto, seus cérebros racionais questionam veementemente essas novas diretrizes, pois não conseguem compreendê-las adequadamente. Resultado: As desculpas.
A desculpa é, portanto, uma tentativa desesperada da mente racional de explicar o que ela própria não entende do comportamento de seu principal aliado, o cérebro emocional. Quando um córtex pré-frontal fica sobrecarregado, a pessoa deixa de compreender claramente a situação. Todas as pesquisas apontam para o fato de que a razão só é boa para realizar pequenas decisões e escolhas. Porém, quando a situação é mais crítica, e a decisão a ser implementada implica em grandes consequências, é o cérebro emocional quem funciona melhor.
Quando alguém manifesta uma desculpa, está tentando ludibriar seu próprio cérebro emocional que já o impulsionou para algo. É uma tentativa infrutífera, pois a sensação não desaparece. No entanto, alivia os efeitos colaterais da inação. Consciente ou inconscientemente, a pessoa acredita que, ao desculpar-se, atenuará os efeitos de sua inércia. Mas não percebe que a maior prejudicada ao agir desculpando-se é ela mesma.
Este processo da dissonância cognitiva acontece tanto em mentes que dão resultados, quanto em mentes que dão desculpas. A diferença é que o primeiro grupo utiliza os questionamentos emitidos pelo cérebro racional para reforçar e sustentar as decisões do cérebro emocional. Ora, quando damos desculpas, estamos tentando oferecer uma justificativa para outro cérebro, ou para o nosso próprio, que desperte uma compreensão de que o que nós fizemos, ou não fizemos, é explicável e compreensível.
Entretanto, se levarmos em conta as consequências deste ato, perceberemos facilmente que somos nós quem pagamos o maior preço por aceitarmos as próprias desculpas.
Talvez alguém possa argumentar: Tudo bem Gérson, mas você está esquecendo o fato de que, quando um indivíduo segue suas emoções, corre o risco de sofre consequências tão cruéis ou piores do que as desculpas. Compreendo esta reflexão, mas jamais poderia concordar com ela, pois o cérebro emocional, além de tudo, incorpora as lições do passado para que possamos decidir o futuro. Nossos erros são extremamente úteis e educadores, ou seja, a decepção aprimora a performance mental de um indivíduo.
Para encerrar, quero compartilhar uma frase de Theodore Roosevelt (26º presidente dos Estados Unidos da América) que diz assim:
"É bem melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com pobres de espírito, que não gozam muito, e nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota."
É fato, ao aceitar o escudo protetor das desculpas, um indivíduo poderá levar uma vida sem sobressaltos. Entretanto, jamais experimentará o néctar da existência humana neste planeta que atende pelo nome de FELICIDADE.
E você, tem dado desculpas ou resultados?
Gérson Rodrigues

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